Mês: abril 2014

Um solo de muitos

O título já anuncia que se trata de um solo. Claudio Barros está sozinho em cena, sem detalhes no figurino, com uma luz próxima do básico, palco nu de cenografia. Solo de Marajó não é, porém, solitário como parece inicialmente. De fato, o que mais chama atenção aqui é que o palco se torna povoado dos personagens dalcidianos, dando a impressão de muitos, Missunga, Alaíde, Filismina, Orminda e vários outros, incluindo um narrador a intermediá-los, no palco em que está só um. Não é por acaso que os episódios nos quais se divide a peça sempre começam pelo nome próprio, enunciado alto e claro pelo narrador, bem como é parte da concepção do espetáculo que o público seja convidado para muito próximo do ator. Solo quer provocar um olhar sensível para as histórias nas quais, mais do que o desenrolar dos fatos, o que importa são as pessoas, as muitas reais que se encaixam nos personagens retratados, que só na ficção encontram espaço para a narrativa de sua realidade. As personalidades militantes de Claudio e Alberto, seu diretor, parecem confirmar a leitura: na sessão que assisti, Claudio depôs ao final sobre a generosidade do público, brindando a resistência dos fazedores de teatro na cena abandonada de Belém. Solo é mesmo pra se ver com olhos generosos.

 Claudio, em cena, explora membros e máscaras em busca de um corpo para cada personagem presente na narrativa, bem observando o que diferencia o teatro da contação de história. É visível a preocupação na busca de um corpo integral do ator, atento de uma extremidade à outra para representar o personagem, tanto em termos de caracterização como de ação. O narrador intermediador, na maioria das vezes, se confunde com o próprio Claudio, como a observar as ações de um ponto de vista classicista, um tanto impassível. Eis o ponto de possível carência do espetáculo: envolvimento mais profundo do narrador com a narração. Percebe-se a alteração de estado do narrador diante das cenas, principalmente na segunda metade do espetáculo, o que coloca o público em êxtase concretizado nos aplausos calorosos. Ainda assim, restam nuances a explorar, o que traria ainda mais à experiência sensorial proporcionada pelo todo da peça.

Dalcídio Jurandir, no cenário nada ideal de circulação da literatura da Amazônia, é talvez o autor mais trabalhado, fomentando leituras e pesquisas em diversas universidades daqui e de fora. Solo de Marajó já é um espetáculo com história em Belém, dando memória do romancista no teatro, e se soma a outras adaptações memoráveis, como as da obra de Márcio Souza e Haroldo Maranhão. Há muito ainda a ser explorado na literatura da Amazônia por quem busca argumento para uma encenação. Que mais atores e encenadores entre nós bebam na fonte, que surjam novas peças banhadas nessas águas. O Solo está aí, felizmente de volta, para inspirar.

Foto: Eder Oliveira

 

Primeiras palavras

Que chame de crítica, ou que compare com seu conceito de crítica, quem quiser. O Teatro Como Ele É traz no título a pretensão de seu conceito: ultrapassar a fronteira do gostar ou não gostar, discutindo aspectos da linguagem e aspectos políticos do teatro feito em Belém ou de passagem por Belém e estabelecendo um espaço iniciador e fomentador de diálogos sobre as peças.

Surgido espontaneamente da vontade de falar-pensar sobre as peças assistidas, o blog, impaciente e sem idealizações, traz o referencial teórico possível de um autor em formação. Entendo o interesse da teoria, e uso-a quando achar que devo, mas não reconheço um suposto nível de teoria necessário. Valido o direito de toda leitura coerente e bem articulada. A linguagem do teatro se revela no palco e não nos livros.

Aspirante ao palco eu mesmo, justifico este espaço também por ter sentido a carência de respostas sobre as produções das quais participei. Quero dizer aqui o que gostaria de ouvir dos outros. Daí a expectativa de que O Teatro se desdobre em outras vozes, de fazedores ou não-fazedores de teatro, que queiram, aqui ou em outro lugar, falar sobre o que virem.

O Teatro não quer ser referência pra nada. Quer simplesmente ser e estar. Gerem-se os efeitos à vontade. A arte ensina a imprevisibilidade.