Mês: maio 2014

À Sombra de Dom Quixote: a beleza em busca da técnica

 

À Sombra de Dom Quixote traz uma proposta por si só desafiadora. Os artistas envolvidos se dão a investigar a nada fácil linguagem do teatro de animação, procurando dar expressividade a bonecos e formas, e o funcionamento do teatro de sombras, onde não é exposto ao público nada além de cores e silhuetas por trás do pano, tudo isso com auxílio da trilha sonora. Para, talvez, aumentar o desafio, não se conta uma história linear, mas se aposta em uma narrativa fantástica de cunho subjetivo, costurada por cartas endereçadas a Dom Quixote, advindas de experiências pessoais dos atores. Como qualquer teatro, é um desafio tanto no nível artístico, com a busca de efeitos criativos e cenicamente belos, quanto no nível técnico, com a busca de soluções de articulação para esses efeitos.

Quanto ao primeiro nível, o que o Coletivo Miasombra apresentou na temporada do último fim de semana no Sesc Boulevard alcança resultados muito significativos. É inegável o fascínio causado por momentos do espetáculo, como a viagem de Dom Quixote pelo interior do corpo humano, mostrada com chapas de raio x, ou a melancolia da cena da dama diante de janelas. As luzes de várias cores são também importantes, imprimindo várias temperaturas e ambientações na cena, sendo o momento do mergulho no fundo do mar o que mais me marcou nesse quesito. Chama atenção em especial a confecção tridimensional dos bonecos, obras de Mauricio Franco, que adquirem expressividade a partir de materiais comuns como arame e papel, mas também com inovações como placas de disco rígido e peças de brinquedos. São exceções os momentos em que a intenção é confusa, como o boneco do Quixote descendo em algo que parece um elevador, numa das primeiras cenas.

O nível técnico é o que deixa a desejar na montagem. É visível que os manipuladores não estão ainda com o domínio desejável de bonecos e luzes. Diversos efeitos, como os encontros dos personagens com o cavalo e o mergulho da dama no fundo do rio para se transformar em sereia, carecem de precisão, diminuindo o potencial envolvimento do espectador. O gigante engolindo a cena perde muito do que poderia ter de impressionante devido a falhas da interação entre o ator e a manipulação das luzes. Mesmo o caos urbano mostrado no início do espetáculo, se trabalhado com domínio maior da técnica, produziria um efeito superior. É tarefa da direção de David Matos mediar a busca do apuro técnico, visando a já agendada próxima temporada, que poderá provar o compromisso do Miasombra com a forma na qual aposta.

Registre-se a generosidade da equipe em, além de ter dado uma oficina sobre a linguagem das sombras antes da temporada, abrir os bonecos à observação e à manipulação pelo público após o espetáculo, com a mediação dos atores. Precisamos de mais momentos como esse, de troca e compartilhamento de experiências, no teatro local.

Quebro o protocolo aqui para agradecer a recepção generosa do grupo Os Varisteiros a meu último texto, sobre o Nó de 4 Pernas. O Teatro Como Ele É vai gerando seus efeitos, como eu queria.

Foto: Luciana Medeiros

O Nó promissor dos Varisteiros

 

Do alto de suas oito décadas de vida, o dramaturgo paraense Nazareno Tourinho mantém um invejável espírito de juventude. A quem quiser provas, basta citar, no ano passado, a participação de Nazareno no movimento Chega!, que agregou artistas da cidade pela saída de Paulo Chaves do comando da Secretaria de Estado de Cultura e por políticas culturais efetivas. Mas o maior exemplo se obtêm mesmo é levando um dedo de prosa com o próprio Nazareno, sempre aberto ao diálogo, a contar suas histórias e a discorrer sobre sua inabalável convicção de esquerda. Nunca esquecerei de novembro de 2013, quando ele aceitou convite da organização de um evento, da qual eu participava, para palestrar em um evento na UFPA, e foi aplaudido de pé por uma plateia emocionada de estudantes. Qual, pois, não deve ter sido a alegria desse homem ao ver Nó de 4 Pernas, sua primeira peça, que é também sua obra-prima, encenada na segunda temporada no último fim de semana pelo grupo Os Varisteiros, jovens fazedores de teatro da cidade, em montagem tão marcante quanto a figura do autor.

A dramaturgia do é ao mesmo tempo uma das mais ricas do teatro paraense, e um exercício grandioso pra qualquer ator. Todos os sete personagens, do início ao fim da trama, têm vontades e contradições bem delineadas, que, pela habilidade do dramaturgo, se apresentam e se cruzam em diversos momentos, o que se percebe pela simples leitura. A montagem dos Varisteiros demonstra, de forma geral, ter se apropriado com muita qualidade do texto, valorizando o essencial da construção dos personagens e explorando com criatividade as possibilidades de subtexto. O resultado, a despeito da pouca experiência de muitos dos envolvidos, é um teatro, se não plenamente maduro, consciente de seu processo de desenvolvimento.

A montagem aposta, além do teatro, em recursos do cinema, projetando imagens filmadas que ilustram episódios presentes na dramaturgia e outros apenas pressupostos. A direção de vídeo é hábil na maior parte das vezes, como no velório que abre o espetáculo, quando capta um sutil jogo de olhares entre os personagens, que prenuncia os conflitos a se estabelecerem, ou quando usa a aceleração artificial de ritmo para mostrar a perseguição frenética da criada da paróquia, Dona Nazaré, que anseia por casar com o sacristão Eusébio. O jogo mais interessante é feito quando a imagem mostra personagens do lado de fora da igreja, prestes a entrarem, enquanto no palco a ação continua acontecendo, proporcionando uma interação entre os atores em cena e as imagens projetadas. O vídeo revela imprecisão apenas no último ato, nos discursos dos personagens Zé Pedro e Padre Elias, onde a câmera quase apenas frontal não favorece nem o jogo de imagens, que é a força da linguagem cinematográfica, nem a interpretação dos atores, e não se alcança uma interação precisa entre as imagens, o texto dito pelo ator e os sons que representam o povo lá fora.

Os atores e atrizes compartilham um evidente prazer de estar no palco, mantendo um bom nível de interpretação que é a alma do espetáculo. Marcelo Andrade, no papel do sacristão Eusébio, transita com facilidade entre a contenção do aspirante a padre e a hipocrisia do crítico do comportamento do povo, e encontra na imagem de São Judas Tadeu um confidente, mostrando um espiritualismo convicto e sensível que cativa o público.  Giscele Damasceno produz uma hilária Dona Nazaré, criada da paróquia, que, sempre procurando fisgar Eusébio em seus atos falhos, beira o histerismo sem perder a simpatia. Thainá Cardoso, uma Ludovina, como a própria diz, espevitada em sua impulsividade, faz dos registros de voz uma marca de sua composição, podendo cortar apenas uma ou outra movimentação desnecessária. Raoni Moreira está seguro no papel do padre Elias, atento a seu papel mediador e ao que sua mediação causa de mudança progressiva no estado do drama. Decerto poderia acentuar esse fator procurando novos motivos instigantes do personagem, expressas em mais nuances de voz e expressão.

Nilton Cézar, interpretando o prefeito, se aproxima da caricatura, exagerando o tom arrogante e o corpo aloprado, assim como Marília Berredo, no papel de sua esposa, que exagera a caracterização da esposa virtuosa e sorridente; ambos, porém, se encaixam bem na cena, e usam seus exageros para acentuar o pânico da iminência da queda de suas máscaras. Arthur Santos, no papel de Zé Pedro, é o ator que menos se encontra em cena, parecendo inconsciente da carga de significado que pode ter um jovem operário, ateu, escolarizado e líder de trabalhadores na comédia. A entrega cada vez maior do ator sem dúvida lhe mostrará caminhos para compor o personagem.

Já o diretor Leonardo Cardoso, explorando cada vez mais as propostas de cada ator, encontrará cada vez mais alternativas para o espetáculo, como já demonstram algumas mudanças feitas da primeira para a segunda temporada. O sacristão lendo trechos da Bíblia num tom cinicamente trágico nos intermédios das brigas entre os demais, por exemplo, desnuda de forma impagável os (des)caminhos do discurso religioso no seio da sociedade. No fundo, o dos Varisteiros é o que mostram as fotos das novas famílias que passam ao final do espetáculo: uma peça sensibilizada com o ser humano e com a felicidade, alcançada, se não por meio da revolução dos trabalhadores, com pequenas revoluções pessoais de autoconhecimento e razão. O público capta a mensagem, e assiste o espetáculo na expectativa e na torcida desse desatar.

Foto: Divulgação