Mês: outubro 2014

Zeca, a cesta e a vida

 

A transmutação do cotidiano em arte é um dos maiores poderes da linguagem teatral. Reorganizando aos olhos do público o modo de apresentar personagens e situações corriqueiras, cristalizadas no senso comum, o teatro consegue despertar uma discussão sobre elas, ainda que interna a cada espectador. É o que faz Zeca de uma cesta só!, espetáculo resultante do processo do Grupo de Teatro Universitário vespertino. Um dia corriqueiro na vida de uma empregada doméstica, em que a comunidade se mobiliza para a entrega de cestas básicas, torna-se mote para reflexões profundas. Não simplesmente pelo tema, mas por mostrá-lo com um uso honesto, consciente e muito inteligente da linguagem teatral, em que a filiação aos princípios brechtianos é subordinada ao que se quer comunicar, e não o contrário, que provavelmente reduziria a força da peça.

O público é recebido com um ritual: Zeca está no centro do corredor, reproduzindo o momento de sua morte. Um tambor é batido com uma marcação lenta, enquanto uma mulher, que pela roupa e pela aparência se revela da mesma realidade que a protagonista, entoa um canto forte: “Se foi amada, nunca se ouviu falar, pois a vida só lhe deu foi três filho pra criar”. Zeca, ali, em roupas simples, prostrada no chão, sem aparentar qualquer santidade, é louvada, é revestida de uma especialidade mística, e torna-se um mito. É como uma afirmação do que a peça se propõe: a vida dessa mulher é digna de habitar o palco do teatro, é digna de virar arte e de um ritual com seu nome entoado. Logo depois, um atuante sem qualquer caracterização entra e lê os princípios e os temas que norteiam a peça, entre os quais está a “alienação”. Os próprios personagens, ao ouvir falar disso, saem das coxias e começam a questionar em voz alta, recusando que essa alienação lhes seja imputada. Não podendo ouvir nem a leitura nem os protestos, eis que o espectador retorna a si mesmo: o alienado, o que está alheio ao que se passa, sentado no conforto de uma cadeira, é ele mesmo!

É dessa forma instigante, e nem um pouco ingênua, que Zeca continua. Logo na primeira cena da ação propriamente dita, a santidade da protagonista, instaurada pelo ritual inicial, é contradita, pois ela mente para justificar uma falta no trabalho, é rígida e grosseira com os filhos e recusa a moral da mãe cristã. Do início ao fim da peça, a busca é por uma representação sem mistificação da realidade da periferia, com toda a reprodução de estereótipos, preconceitos e discursos segregadores que nela existem. Os quatro dramaturgos da peça sabem do que estão falando e o que têm a dizer, condição fundamental para a boa dramaturgia. Ações físicas são muito bem usadas para manter a dinâmica e quase sempre imprimir humor às cenas, com transições admiráveis. Antes da metade do espetáculo, o público já foi conquistado por esse jogo teatral preciso, o que faz com que as quebras de parede, como quando Dinda oferece o conhecido chopp de frutas à plateia, soem muito naturais.

O caráter de protesto do espetáculo, constante na tessitura do drama, é explicitado em diversos momentos por projeções de textos e por dois atuantes-comentadores que surgem do meio da plateia, e aqui novamente Zeca mostra enorme inteligência na integração de seus elementos. Um ator entra representando uma bike som, e seu anúncio de “agora em 3D” nada mais é do que o anúncio do momento de subversão da estrutura da peça: a festa de aparelhagem, que torna o público parte de um verdadeiro ato revolucionário. Nota-se como a encenação tem consciência do que a cena representa, pois a ação dramática aqui é interrompida, dando lugar ao momento de gozo puro da diversão. A seguir, os comentadores entram em cena discorrendo sobre a dualidade de amor e ódio vivida pelo pobre, enquanto os personagens encarnam os dois sentimentos no palco, num jogo vivo e interessantíssimo. Quando Zeca recorda sua infância, a cena em que ela sai de sua cidade natal para morar na cidade, onde sofre abuso sexual, é toda tecida com uma trilha sonora que retoma sonhos e contos de fadas, numa antítese cruel.

A cena que apresenta a ação é retomada do início duas vezes, de forma curiosa. A mim parece que as cenas que vão acontecendo servem para preencher de sentido essa cena inicial, de forma que, a cada repetição, o espectador tem mais instrumentos para decifrar suas palavras, não sem escapar das contradições a elas inerentes. A infância sonhadora e cruel de Zeca sugere novos sentidos ao seu tratamento para com os filhos e à sua amizade com Dinda, a realidade de segregação vivida no prédio provoca outro olhar sobre Zeca roubar coisas dos patrões. A cada pequena relação dessa cabe um longo texto, que não farei aqui; basta citar a qualidade e o efeito da estratégia de encenação escolhida.

O final de Zeca merece uma análise à parte. Depois que a protagonista é atingida por uma facada, a intérprete da filha “abandona a ficção” e se dirige à plateia, dando-lhe a chance de escolher o final da história, dando ou não uma sobrevida a Zeca, mas claramente direcionando a plateia para a escolha supostamente positiva. A ação é retomada, e o que parecia uma sobrevida se revela apenas como a morte por outras mãos, as da polícia, que intervém violentamente na briga e leva Zeca presa. É quando é mostrado o vídeo de Claudia Silva Ferreira, baleada e arrastada no asfalto por vários metros por uma viatura da Polícia Militar, e anunciada a morte de Zeca, em um grito visceral que ecoa no escuro do teatro. A inserção da realidade na ficção, que soma à crueldade do impacto da peça, é só a menor das qualidades desse momento da peça: merece destaque o efeito gerado pela cessão da escolha ao público, que reflete a crítica à ideia da “salvação” do pobre ser possível apenas pelas mãos do rico, ou do público burguês que assiste a peça. E a única solução que conseguimos dar é o braço armado da injustiça social, uma das polícias que mais matam no mundo, impunemente e parecendo cada vez mais legitimada pelo discurso reacionário. O espetáculo sabiamente não nos dá os detalhes para uma ilusória escolha positiva, mas lança na nossa cara o que sabe ser nossa melhor e pior resposta.

Após esse momento máximo, a peça se despede sem abandonar o comprometimento com seu debate. Um cortejo dxs atuantes, já despidxs dos personagens, entra carregando cada um uma cesta (ou seria cada um apenas uma vida?) e o caixão de Zeca, em um ritmo lento que freia a emoção da cena anterior. Palco e plateia finalmente se encaram, e questionam um ao outro sobre tantos sentidos invocados. O caixão se abre, revelando no interior os alimentos doados pela plateia: morte e sobrevivência inseridas uma na outra. As Zecas, adulta e adolescente, entram e depositam suas caracterizações no caixão, fechando a trajetória desses seres ficcionais, mas que existiram no corpo dos seres reais que são as atrizes, guardando-se uns aos outros dentro de si. É a metáfora final de Zeca, poderosa como todas as outras.

Parece complexo, e é. Mas de uma complexidade que foi compreendida com entusiasmo pelo elenco, porque traduzida em uma linguagem teatral límpida e brilhante. Por mais que alguns demonstrem mais do que outros a consciência do que é produzido de revolucionário ali, atores e atrizes são todos vibrantes, envolventes, integrados no ímpeto de narrar a Zeca. A todos eles, ao diretor Léo Ferreira e a toda sua equipe rendam-se nossos olhos de plateia. À Zeca só se pode prometer que não será esquecida por nós que militamos diariamente por alguma causa. A luta, seja qual for, tem que chegar na Zeca, respeitando as contradições e os signos sociais próprios que ela carrega.

E hoje deixo um muito obrigado à Companhia Nós Outros, na pessoa de Carlos Correia Santos, pela recepção positiva e pela divulgação de meu último texto, sobre Ópera Profano.

Foto: Claudio Tayko

 

Das belezas do profano

Venderam a santa, é o que fala quem vê a procissão do Círio de Nazaré cada vez mais falseada por ornamentos. Fé transmutada em derrame de dinheiro, em poder hipócrita, em competição insuflada pelo capital. O que resta ao encanto diante da varanda dos artistas? Morrer, talvez. Mas para renascer em forma de poesia. Poesia que em Ópera Profano, última montagem da Companhia Nós Outros, se revela plena, forte, penetrando no âmago de humanos e santos. Como a questionar o comercialismo da festa nazarena, tudo começa com um roubo: roubaram a santinha, anunciam as meninas, travestis, que vivem do prazer que dão a outros no Cine Ópera. Foram elas mesmas que roubaram; roubaram ou tomaram pra si? O espetáculo trata de confirmar a segunda opção, com o derrame de memórias que os cinco personagens realizam em uma hora e vinte minutos de peça que valem por várias vidas.

Carlos Correia Santos já tem reconhecidas suas qualidades de dramaturgo, mas este é seu melhor texto. Em nenhum outro há este nível de poesia, que concatena tão perfeitamente as metáforas de religião, família e sexualidade. Nenhum outro mostra tanta habilidade de encaixe entre drama e comédia. Nenhum outro é tão potente para a cena, oferecendo palavras tão poderosas a atores e atrizes. E consegue, em meio a tudo isso, tocar visceralmente, sem filosofias inócuas, em temas graves e sensíveis ao mesmo tempo. E consegue, o que não é pouco, tratar desses temas usando como mote a maior festa religiosa do Brasil, com uma polêmica honesta, que torna universais os signos da cultura regional e preenche de um valor esquecido a devoção à santa. Com isso, a peça toma uma cara erudita e popular, um potencial precioso de diálogo com vários públicos. Carlos colocou em Ópera Profano toda sua capacidade de transmutar em arte um olhar social e cultural.

A direção de Hudson Andrade dá tudo que o texto pede: corpos em cena que encarnam inteiramente o estado provocado. Há um jogo preciso de transição entre o núcleo do cinema, formado pelos personagens de Baby, Mira, Tota, Lucas e Ângelo, e o núcleo religioso, formado pela Misteriosa, a representação da Virgem de Nazaré, e duas Conselheiras autoritárias e conservadoras. Enquanto o primeiro núcleo arma o conflito no centro do corredor, as três atrizes que compõem o segundo ficam em suas extremidades, em composições corporais de tensão e resistência que acompanham seus textos e produzem uma presença verdadeira. O uso hábil de luzes, sombras e penumbras imprimem uma beleza visual valiosa à cena. Algumas relações ocultas da dramaturgia, como a atração entre Ângelo e Lucas, parecem deslocadas em meio a outros conflitos que a peça maximiza, e uma dificuldade com o ritmo da cena se mostra em alguns momentos, mas tudo isso é pouco diante do desafio que o espetáculo cumpre, de se comprometer com a densidade do texto.

O que são Nilton Cézar e Luis Girard em cena? Energia indescritível, compreensão profunda dos personagens. A dupla de atores maduros, responsável pelos pontos mais altos da peça, é a linha de frente de um elenco onde ninguém deixa a desejar. Em cada ator e atriz, um triunfo no contínuo entre explosão e contenção, até a entrega total que se revela nos longos monólogos, nos quais cada um conta dolorosamente de seu passado, recebendo dos intérpretes toda a reverência que lhes é devida.

Carlos Correia Santos não é tão bom compositor como é dramaturgo. As músicas e a trilha sonora do espetáculo deixam a desejar, às vezes indo na contramão do que as cenas produzem em efervescência, e as coreografias montadas a partir delas dizem muito pouco. São, porém, elementos do espetáculo que se tornam quase nada diante do que é produzido de belo. Celebre-se Ópera Profano e o trabalho da Nós Outros como o Círio que lhe dá o mote: um ritual do sagrado e do profano, a tocar fundo nos milhões pelos quais cada um de nós vale, e sempre a nos revelar algo novo. Onde a arte não precisa de varanda, mas desce para nos abraçar. Um patrimônio do teatro paraense.

Foto: Karina Paes

NOTA DO BLOG

Estou plenamente satisfeito com a repercussão da última postagem, sobre o espetáculo Recordo Ainda (http://is.gd/kU5OiG). Contemplou quem assistiu, e mediou um movimento bem legal da galera pensando em pontos positivos e negativos da peça (o que não quer dizer que eu esteja certo nem errado no que escrevi). As manifestações toscas, com ataques pessoais, de quem montou a peça só servem pra aumentar a minha vergonha alheia e a do público. Repito o que já disse: achem o que quiserem do que eu escrevo, mas não ignorem as muitas avaliações negativas feitas do espetáculo de vocês. Se vocês ignoram isso, quem perde é o teatro. É a serviço dele que O Teatro Como Ele É está.

Fiasco universitário

Meses atrás assisti a um encontro do turno noturno do Grupo de Teatro Universitário da UFPA, no qual foram apresentados resultados de oficinas de interpretação com textos de Plínio Marcos. Àquela altura, o trabalho desenvolvido no grupo parecia animador. Atores e atrizes em sua maioria mostravam energia cênica, consciência de textos e subtextos, entrega real, enfim, tudo o que uma direção deseja para lapidar. Lembrando desse dia, torna-se difícil explicar como Recordo Ainda, espetáculo que resulta de todo o processo do GTU noturno, tem tantos e tão primários problemas. A primeira apresentação, para além de uma compreensível insegurança da equipe, mostrou carência de direção, dificuldades generalizadas de interpretação, uma dramaturgia pueril e um trabalho criativo inócuo em visualidade, coreografia e música.

A proposta, sem dúvida ousada, é falar das memórias de um personagem central a partir dos chamados “sentimentos materializados”. Os personagens deixam de ser indivíduos particulares com intenções que justificam a ação e carregam sensações, mas representações das próprias sensações, supostamente universais. Mas esperamos do início ao fim que as cenas comuniquem algo de profundo sobre esses sentimentos, e em nenhum momento há um estado de presença cênica ou um nível de interpretação que dê conta disso. É quase inacreditável quando se ouve, para citar apenas um exemplo, a Vaidade mostrar a vergonha de ser estuprada dizendo “estou com tanta vergonha”, recurso de pobreza extrema, que foi genialmente ironizado em Sonho de uma noite de inverno, dos Varisteiros (http://is.gd/dFyb9C).

Recordo Ainda demonstra também não ter conseguido integrar as várias linguagens que mobiliza em prol de uma narrativa coerente. A música passa sem deixar qualquer impressão, acompanhada por coreografias mornas e simplórias. Canto, técnicas circenses, fragmentos de poemas conhecidos e outras linguagens aparecem em momentos pontuais, sem construir sentido, evidenciando mais uma vez a fraqueza da direção. A distribuição das cenas no palco, com alternância entre um plano alto, o chão e plataformas móveis, talvez seja o único indício de uma intenção narrativa consciente. Sobre a cena “interativa” que acontece na metade do espetáculo, pouco se pode comentar. É um momento de absurdo e comicidade perdido em meio a um espetáculo perdido, onde o jogo entre os atores acontece mais fluidamente, mas fica por ser explicado o motivo do público ser levado para o palco, já que ele permanece em suas cadeiras, sem participação alguma na cena.

Todos esses problemas são, frise-se, responsabilidade da numerosa equipe que dirige o projeto, que transparece, pelo resultado que apresenta, grandes dificuldades de trabalho entre si. A tradição é que os atores e atrizes do GTU sejam de diversas procedências, muitxs nunca fizeram teatro, outrxs se acostumaram com uma forma de fazer que não é a aplicada no grupo, mas todxs compartilham do prazer e da empolgação de estar em um espetáculo pelo qual o público sempre espera. Aqui não é diferente. O que torna Recordo Ainda marcante negativamente é que essa coletividade poderosa foi desperdiçada.

Foto: Página do espetáculo no Facebook