Mês: dezembro 2014

As dubiedades de Fosca

Poder-se-ia chamar Paixão Fosca de um espetáculo classicista? Há uma dramaturgia fechada, que claramente é o ponto de partida de todos os elementos do processo, que inclusive é baseado em um romance, e há um investimento na identificação psicológica entre atores/atrizes e personagens, ressaltada no figurino de cada um. Além disso, os personagens são retirados do contexto aristocrático-militar do século XIX e em nenhum momento abandonam esse enquadre.

Há, porém, momentos de indeterminação do espaço da ação, cartas trocadas entre os personagens que modificam a forma dramática de construção do conflito, ações realizadas de forma ilustrativa, como a marcha do capitão em torno da cena, e detalhes da cenografia que parecem visar a uma representação abstrata, como as raízes que sustentam uma tábua usada como mesa e cama e caixotes que são quase sempre bancos, mas em um dado momento viram malas de viagem. Somos, assim, guiados pela cena ao mesmo tempo em dois caminhos diferentes: uma de identificação direta de seus elementos e outra de subversão da ordem desses elementos em direção a uma estética não-realista.

Não vejo que essa dubiedade é bem resolvida cenicamente pela peça. O espectador, no fim das contas, acaba ignorando os elementos não-realistas e se concentrando na intensidade do conflito dramático criado pelos elementos diretamente representativos, que são os que mais bem funcionam e que compõem os momentos mais brilhantes da peça. Paixão Fosca, em suma, dispensa as subversões estéticas que se lhe interpõem. É uma peça cuja força reside nos conceitos fechados. Nesse âmbito, a interpretação de atores e atrizes se torna essencial, e todxs estão bem construídos em cena, com exceção de Camila Lima, que pouco explora a linha dramática de sua personagem, mostrando-a do início ao fim em uma uniformidade que chega a ser monótona.

Um último aspecto interessante do espetáculo de Guál Dídimo são algumas construções conjuntas de dramaturgia e interpretação, que jogam para o riso e para o suspense cômico momentos cruciais do drama, especialmente envolvendo a personagem Fosca. O resultado é que o conflito é inicialmente interpretado com uma carga de deboche, e no final essa interpretação é invertida, com a plateia reconhecendo todo o peso dos motivos dos personagens. Essas construções parecem ser usadas com consciência pela encenação, mas penso que outros caminhos poderiam ser explorados, talvez imprimindo uma força maior à fábula. Dúvida em lugar de deboche, por exemplo.

Paixão Fosca é um bom espetáculo que merece ser visto, e provoca uma reflexão positiva sobre a dinâmica entre realismo e subversão, possibilidades que o teatro lindamente oferece. Na cena paraense, que luta para se fortalecer, é conveniente pensar em quando um o outro caminho conduz a maiores resultados.

Foto: Léo Andrad

 

 

Viagem com os pés no chão

Um espetáculo que propõe um corredor que é usado praticamente apenas para entrada e saída de cena, que propõe vídeos que incitam uma dramaticidade que a cena não acompanha, que assume um realismo que se pasteuriza sem vida cênica, que insere uma enorme quantidade de personagens sem desenvolver quase nenhum, que aposta em impactos visuais sem consequência para o discurso expresso. Esse é Tchekhov viaja: um espetáculo de desencontros. Resultado do 1º ano do curso técnico em Ator da Escola de Teatro e Dança, é uma volta ao passado, à época das montagens do autor russo que ajudaram a fundar a Escola. Oportuna, sem dúvida, mas que se mantém no nível teórico, não traduzindo essa importância em cena. Depois de um início empolgante com direito a dança russa e atores vibrantes, Tchekhov entra em uma permanente inexpressividade que mostra que a viagem prometida no título é meramente um título, com todos os elementos da cena, a plateia incluída, se mantendo o tempo todo com os pés no chão.

As práticas de montagem quase sempre mostram assimetria nas interpretações, com o elenco numeroso e os diferentes níveis de dedicação dos alunos ao projeto, sendo natural que se destaquem alguns. Tchekhov, porém, é desequilibrado nesse ponto: quase nunca se vê algo além de uma dicção mecânica do longo texto e de uma movimentação evidentemente marcada e nada orgânica. A pouca vida do elenco é tão flagrante que parece às vezes uma opção estética do espetáculo. Não fossem os poucos atores que se apoderam de seus papéis e se agigantam no palco, Tchekhov seria um desfile de monotonia. Fica no ar se isso se deve a atropelos da disciplina, a negligência da direção, a displicência dos atores ou a uma mistura de um pouco de tudo isso.

Espetáculo convencional, sem nenhuma ousadia, que se mantém na superfície de todos os quesitos da linguagem cênica, Tchekhov viaja, no lugar não ocupado pelo fascínio, deixa a preocupação sobre a formação dos jovens atores pela Escola de Teatro. Que consciência artística resulta de um processo que se limita em teorias, e não abre experimentações que alcancem os anseios de jovens atuantes? O primeiro deles parece já se revelar nos créditos do espetáculo, quando a plateia mais parece uma torcida dividida entre as atrizes e atores do que uma real espectadora de arte. Parcialidades e egos é o que salta aos olhos quando o teatro não brilha.

Foto: Anne Beatriz Costa