Mês: março 2015

Sobre Crueldade e o fazer-se mostrar

Por que uma atuante, visivelmente entregue a um trabalho cênico profundamente corporal, não consegue conquistar o olhar do público para o desvendar dos sentidos da encenação? Essa é a principal questão que desperta Crueldade, trabalho da Companhia Cínicos de Teatro apresentado no último final de semana. Paula Barroso em cena foi, do início ao fim, extremamente dedicada, vigorosa e técnica no correr do monólogo baseado em poderosos escritos de Artaud, mas criou ao seu redor uma atmosfera de estranhamento e desencantamento que chegaram ao paroxismo do desânimo e derrubaram a empatia do público para com a cena.

Por que isso aconteceu? A chave, a meu ver, está na relação que a direção de Robert Rodrigues cria da atuante para com o público e, outro lado da mesma questão, da atuante para consigo mesma. A peça dos Cínicos corresponde a um teatro menos dependente da forma dramatúrgica clássica, no qual a busca principal é pela descoberta de caminhos de construção da presença cênica internos ao atuante, que mostrem não fatos propriamente ficcionais, mas a entrega real da própria vida do artista, mediada pelos elementos da encenação. Nesse âmbito, Crueldade tem, ou teria, um apelo artístico invejável a muitos outros grupos que buscam formas semelhantes, mas esse apelo se perde à medida que Paula Barroso está a todo momento desconcentrada de seu ato total, procurando sem necessidade ou finalidade visível a interação com o público, seja por olhar, gesto ou ação, em vã e desastrosa tentativa de fazer chegar até ele um drama sem bases internas sólidas. Se a atriz executa seu roteiro de ações mais preocupada em se mostrar do que em fazer-se mostrar, a cena alcança uma outra dimensão, na qual a plateia é provocada à cumplicidade e à viagem poética.

Esse fator fundante da arte de Crueldade, aliás, relaciona-se ao fator de que cada espectador ganha, ao entrar no local da encenação, uma pequena vela para segurar, o que se revela sem nenhuma funcionalidade dentro da estrutura poética da peça, já que sempre há iluminação de outras fontes e nenhuma ação é efetuada pela atriz em relação às velas. Aqui também há um chamado despropositado a algum tipo de participação ou imersão do público, que não escapa da artificialidade e contribui para fragilizar a experiência de assistir à peça. O final, teoricamente interessantíssimo, com a atmosfera cruel dando lugar a um insano baile de carnaval, perde o sentido prático depois de quase duas horas de tentativas errôneas de atrair a atenção.

Crueldade tem uma base promissora. Precisa de revisão severa em seu modo de produzir discurso. Com isso, pode ser um dos espetáculos locais a investir de forma mais consciente, inteligente e ousada, em suma, admirável, na reinvenção da linguagem teatral.

Cabanos em palco burguês

Um coronel de polícia, junto a um subalterno, à procura de revoltosos foragidos, acaba de torturar física e psicologicamente uma mulher e sua filha grávida, e está prestes a estuprar esta, quando avisa ao subalterno para “se divertir com a velha” e o público cai na gargalhada. A bizarra reação da audiência a uma cena de covardia extrema resume toda a sensibilização que não causa Cabanos – uma viagem no tempo, espetáculo do grupo Encenação que acaba de encerrar uma curta temporada no Margarida Schivasappa. O que poderia ser um gesto corajoso de por no palco o que houve de melhor e pior na revolução amazônica, bem documentada e narrada por tantos autores, torna-se um espetáculo grandiosamente modesto em poder de fogo, por, do início ao fim, buscar uma forma que em nada foge ao estabelecido pelo mais primário palco burguês.

Inúmeros elementos de Cabanos negam a complexidade histórica e o caráter anticolonial da revolução, reproduzindo uma forma de teatro convencional e, por que não dizer, colonizada. A começar pela escolha de romantizar o enredo para enquadrar a história no gênero do drama burguês, inserindo o clássico romance proibido entre dois personagens de classes distintas. Boa parte da peça é preenchida com a construção desse núcleo, que ao final serve apenas à confirmação do caráter negativo de um dos antagonistas dos cabanos, sem agregar informações novas importantes à imagem que se quer construir do movimento. Acrescente-se a trilha sonora épica que insistentemente acompanha as cenas, reforçando uma narrativa onde as posições de heróis e vilões já estão definidas desde o início; uma direção que preza quase sempre por uma espacialidade óbvia, em que não se provoca os sentidos do espectador; e a escolha de símbolos profundamente apropriados pela cultura burguesa para o reforço da imagem cabana, como a bandeira do estado do Pará, ícone certo dos vários e parecidos governos opressores.

De nada adianta o efeito impactante causado por atores e atrizes aguerridos em seus discursos no palco: visto em sentido lato, Cabanos serve mais para desacreditar a revolução que quer exaltar. O que pede da arte o nosso passado de lutas é uma compreensão que leve para a própria linguagem artística os ideais de revolta e subversão, e não tentativas, por mais pomposas que sejam, de enquadrá-los em continuidades.

Foto: Página do grupo no Facebook