Cabanos em palco burguês

Um coronel de polícia, junto a um subalterno, à procura de revoltosos foragidos, acaba de torturar física e psicologicamente uma mulher e sua filha grávida, e está prestes a estuprar esta, quando avisa ao subalterno para “se divertir com a velha” e o público cai na gargalhada. A bizarra reação da audiência a uma cena de covardia extrema resume toda a sensibilização que não causa Cabanos – uma viagem no tempo, espetáculo do grupo Encenação que acaba de encerrar uma curta temporada no Margarida Schivasappa. O que poderia ser um gesto corajoso de por no palco o que houve de melhor e pior na revolução amazônica, bem documentada e narrada por tantos autores, torna-se um espetáculo grandiosamente modesto em poder de fogo, por, do início ao fim, buscar uma forma que em nada foge ao estabelecido pelo mais primário palco burguês.

Inúmeros elementos de Cabanos negam a complexidade histórica e o caráter anticolonial da revolução, reproduzindo uma forma de teatro convencional e, por que não dizer, colonizada. A começar pela escolha de romantizar o enredo para enquadrar a história no gênero do drama burguês, inserindo o clássico romance proibido entre dois personagens de classes distintas. Boa parte da peça é preenchida com a construção desse núcleo, que ao final serve apenas à confirmação do caráter negativo de um dos antagonistas dos cabanos, sem agregar informações novas importantes à imagem que se quer construir do movimento. Acrescente-se a trilha sonora épica que insistentemente acompanha as cenas, reforçando uma narrativa onde as posições de heróis e vilões já estão definidas desde o início; uma direção que preza quase sempre por uma espacialidade óbvia, em que não se provoca os sentidos do espectador; e a escolha de símbolos profundamente apropriados pela cultura burguesa para o reforço da imagem cabana, como a bandeira do estado do Pará, ícone certo dos vários e parecidos governos opressores.

De nada adianta o efeito impactante causado por atores e atrizes aguerridos em seus discursos no palco: visto em sentido lato, Cabanos serve mais para desacreditar a revolução que quer exaltar. O que pede da arte o nosso passado de lutas é uma compreensão que leve para a própria linguagem artística os ideais de revolta e subversão, e não tentativas, por mais pomposas que sejam, de enquadrá-los em continuidades.

Foto: Página do grupo no Facebook

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