Sobre Crueldade e o fazer-se mostrar

Por que uma atuante, visivelmente entregue a um trabalho cênico profundamente corporal, não consegue conquistar o olhar do público para o desvendar dos sentidos da encenação? Essa é a principal questão que desperta Crueldade, trabalho da Companhia Cínicos de Teatro apresentado no último final de semana. Paula Barroso em cena foi, do início ao fim, extremamente dedicada, vigorosa e técnica no correr do monólogo baseado em poderosos escritos de Artaud, mas criou ao seu redor uma atmosfera de estranhamento e desencantamento que chegaram ao paroxismo do desânimo e derrubaram a empatia do público para com a cena.

Por que isso aconteceu? A chave, a meu ver, está na relação que a direção de Robert Rodrigues cria da atuante para com o público e, outro lado da mesma questão, da atuante para consigo mesma. A peça dos Cínicos corresponde a um teatro menos dependente da forma dramatúrgica clássica, no qual a busca principal é pela descoberta de caminhos de construção da presença cênica internos ao atuante, que mostrem não fatos propriamente ficcionais, mas a entrega real da própria vida do artista, mediada pelos elementos da encenação. Nesse âmbito, Crueldade tem, ou teria, um apelo artístico invejável a muitos outros grupos que buscam formas semelhantes, mas esse apelo se perde à medida que Paula Barroso está a todo momento desconcentrada de seu ato total, procurando sem necessidade ou finalidade visível a interação com o público, seja por olhar, gesto ou ação, em vã e desastrosa tentativa de fazer chegar até ele um drama sem bases internas sólidas. Se a atriz executa seu roteiro de ações mais preocupada em se mostrar do que em fazer-se mostrar, a cena alcança uma outra dimensão, na qual a plateia é provocada à cumplicidade e à viagem poética.

Esse fator fundante da arte de Crueldade, aliás, relaciona-se ao fator de que cada espectador ganha, ao entrar no local da encenação, uma pequena vela para segurar, o que se revela sem nenhuma funcionalidade dentro da estrutura poética da peça, já que sempre há iluminação de outras fontes e nenhuma ação é efetuada pela atriz em relação às velas. Aqui também há um chamado despropositado a algum tipo de participação ou imersão do público, que não escapa da artificialidade e contribui para fragilizar a experiência de assistir à peça. O final, teoricamente interessantíssimo, com a atmosfera cruel dando lugar a um insano baile de carnaval, perde o sentido prático depois de quase duas horas de tentativas errôneas de atrair a atenção.

Crueldade tem uma base promissora. Precisa de revisão severa em seu modo de produzir discurso. Com isso, pode ser um dos espetáculos locais a investir de forma mais consciente, inteligente e ousada, em suma, admirável, na reinvenção da linguagem teatral.

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