Mês: junho 2015

Machado entre forma e conteúdo

 O Assassinato de Machado de Assis, montagem da Companhia Nós Outros que encerrou temporada no último fim de semana no auditório da FIBRA, excursiona por duas formas de construção dramática.

A primeira é uma forma não-realista que adota como princípio a exposição constante dos elementos de linguagem cênica e do próprio fazer teatral. O bombardeio dessa exposição coloca a montagem em uma tensão constante entre forma e conteúdo, ora com maior, ora com menor integração entre os dois. Sendo a dramaturgia um mergulho na consciência traumatizada do detetive Queiroz, essa escolha cênica encontra seu sentido como se acompanhássemos esse mergulho de conteúdo através de um mergulho de forma, visualizando os elementos formais da cena. No entanto, a peça cai algumas vezes na formalização gratuita. Tomo como exemplo os atores se alongando e se aquecendo às vistas do público, antes de iniciar a ação. Até mesmo pela trilha sonora que acompanha esse alongamento, ele acontece não como uma preparação pré-expressiva genuína, mas como uma cena colocada no início da peça, que não encontra sentido em seu conteúdo dramático. Acrescento que, por exemplo, a sonoplastia feira fora de cena (barulhos de telefone, ruídos de eletricidade, trilha sonora) artificializa essa proposta cênica, posto que a torna não-total ou menos intensa. Acredito, de fato, que ela pode ser amadurecida.

A segunda forma de construção dramática é o suspense cômico, caracterizada pela apresentação de um mistério a ser desvendado, com tensão crescente que é resolvida no desfecho, mas que ao mesmo tempo mostra diversos elementos de comédia, que relaxam constantemente o ponto de vista do espectador. Já vimos formas semelhantes ou próximas em outros espetáculos recentes, como Sonho de uma noite de inverno e Encantados S.A.. Mas, ao contrário deste, onde a forma compõe uma narrativa de conteúdo muito próximo do senso comum, sem intenção de aprofundar nenhum debate, e daquele, onde a intenção pura e simples é armar um grande deboche sobre as facetas da arte teatral, O Assassinato quer destacar um discurso de fundo moral, político e, por que não dizer, pedagógico, no caso, o de que a rejeição ao cânone literário gera ignorância generalizada no indivíduo. A caracterização do detetive Queiroz como um homem frustrado, inseguro, tolo, que comete erros ortográficos, é o ponto central desse discurso, uma vez que nos é revelado no final que ele próprio foi o responsável pelo assassinato de Machado de Assis, ao negar a leitura de sua obra e rasgá-la. Mas há que se refletir, nesse contexto, se o cômico é a forma mais adequada de discutir essa questão. A meu ver, não obstante as frases marcantes da dramaturgia de Carlos Correia Santos (“as pessoas estão distantes de nós porque estão cada vez mais distantes de si mesmas”, diz um dos personagens de Machado), o espetáculo acaba nos distanciando de uma reflexão sobre esse debate, por insistir em demasia no reforço de seus elementos cômicos.

Não posso deixar, nesse ponto, de expor meu incômodo pessoal, como professor de português e profissional de Letras, e observador pessoal desse ofício numa perspectiva liberal, com o ponto de vista defendido pelo espetáculo. Ao demarcar de forma isolada a atitude de Queiroz como problemática, e, ainda por cima, revelar a professora Lina como a própria Capitu, responsável por levar a obra a estudantes e por punir caso ela não fosse lida, numa espécie de vigilância policial da obra sobre sua recepção, O Assassinato ignora todas as condições sociais e históricas intrínsecas ao fenômeno de desvalorização do cânone literário. Queiroz, na peça, acaba representando as crianças e jovens que, oriundos de classes desfavorecidas, chegam à escola e são apresentados de forma totalmente equivocada, por meio de obrigações, punições, notas, trabalhos inúteis, enfim, a uma cultura com a qual não têm contato no cotidiano. O espetáculo, ao validar esse tratamento da obra que defende, acaba reforçando a separação entre ela e o potencial público leitor, e, lamentavelmente, caindo no senso comum. Por crer que é possível e necessário, sinto falta de um tratamento mais profundo do assunto, nos palcos ou fora deles.