Um Pássaro e suas (re)criações

Comecei a pensar sobre o Pássaro do Dirigível Coletivo de Teatro um pouco antes de sair para assisti-lo. Me instigava o trabalho ter dispensado os títulos novelescos das dramaturgias tradicionais de pássaro junino, e ter-se denominado simplesmente Pássaro. Isso parecia indiciar um tratamento diferente dos elementos próprios desse tipo de espetáculo popular paraense, que investisse o melodrama e a comédia, que lhe são característicos, de um nível de metáfora e poesia, mais característico da formação dos membros do Dirigível e traço marcante de suas produções recentes. Aí mesmo estaria o aspecto mais interessante do espetáculo: a síntese de duas instâncias sociais de letramento diferentes, com história, simbolismo e relação com seu público concebida de forma muito específica. Basta lembrar que o até então último espetáculo do coletivo, 731 são doze, uma performance tecida entre poemas de Fernando Pessoa, durava duas horas e meia e era apresentado em sessões para não mais de doze espectadores. Já o pássaro, encenado sob esquemas padronizados e salvaguardados pelos donos e guardiões, limitando a experimentação, tira sua força justamente da integração da comunidade de seu entorno, seja como plateia ou como brincante. O que o Dirigível teria criado a partir desses dados? Teriam se pautado de fato nesses dados?

A apresentação logo de cara confrontou minhas indagações, com o gesto do coletivo de ceder a Iracema Oliveira, guardiã do pássaro Tucano e representante eminente do contexto letrado popular, espaço para uma espécie de micropalestra sobre a tradição do pássaro. O Dirigível, assim, representa o contexto popular do qual tirou a inspiração por meio de uma intervenção didática de Iracema. No entanto, nem Iracema nem outra pessoa diretamente associada à cultura popular faz qualquer intervenção visível na peça propriamente dita. Seria esse fato um limite imposto pela própria montagem à manifestação que exalta?

Passada essa impressão inicial, minhas reflexões não encontraram eco no decorrer da representação. Não se nega: o Pássaro do Dirigível é admirável como entretenimento. Todos os elementos, sem nenhuma queda para o lugar-comum, colaboram para o envolvimento do espectador. Destaco a qualidade da fisicalização dos atores e atrizes, refletindo um trabalho pré-expressivo de alto nível, propriedade da arte dramática que quase sempre é a principal carência do teatro popular. No entanto, para além dessa qualidade diferenciada, a estrutura da obra do coletivo sobressai muito pouco da estrutura tradicional do pássaro junino. Quer dizer: a capacidade do Dirigível de (re)criar o pássaro junino, com a licença poética esperada de um coletivo como esse, é pouco explorada. Noto apenas o pássaro, criado com arames multicoloridos, como elemento portador dessa licença, tanto pela forma de sua construção (o pássaro do teatro popular é quase sempre montado com as cores do pássaro real e/ou com as cores-símbolo do grupo, e representado pelo porta-pássaro, quase sempre uma criança) quanto por seu papel na poesia do espetáculo (a cena final, da ressurreição, é própria da estrutura do cordão de pássaro tradicional, mas aqui representa também o fortalecimento de todos os outros pássaros da cena popular, aprisionados pelo feitiço da marquesa).

Termino este texto problematizando um último fato: a procura de treinamento profissional de esgrima para a cena do duelo entre o príncipe e o caçador. É legítima a preocupação do Dirigível em dar qualidade a esse momento da peça, principalmente face à marcante preparação física mostrada em toda ela, como mencionei acima. Contudo, a intervenção da matutagem, colocando capacetes de esgrima nos atores, aparece como uma demarcação de fronteira estranha ao discurso do espetáculo. Até então, toda a qualidade do elenco, do texto, do figurino e de tudo o mais, vinha sendo mostrada sem a explicitação dessa diferenciação, traduzindo respeito do coletivo para com sua fonte popular. Os capacetes de esgrima explicitam esse profissionalismo, criando uma distância entre este espetáculo de pássaro e os outros, que dificilmente alcançariam (e nem precisam alcançar) esse nível de preparo técnico. Voltei, nessa altura, às minhas reflexões do início do espetáculo, e me perguntei se o Dirigível sem querer criara um limite para o que homenageava. Uma indagação de muitas que, no entanto, só são possíveis com a coragem e o comprometimento de grupos como esse na cena local.

Registro e agradeço aqui a resposta gratificante da Cia. Teatral Nós Outros, na pessoa de Carlos Correia Santos, a meu último texto, sobre O Assassinato de Machado de Assis.

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