Mês: maio 2016

A realeza de Édipo, ou quem fica do lado de fora também escreve crítica

Chego aos arredores do Palácio Lauro Sodré na agradável noite de oito de maio. O imponente prédio de brancura onipresente, sólidas e absolutas paredes e portões, circundado por uma plataforma empedrada que o eleva na paisagem plana do centro de Belém, me faz sentir pequeno, e, quanto mais me aproximo, mais me distancia; sou um membro do povo, longe dos poderes centrais pelos e para os quais o lugar existe. Lembro o que vim fazer ali: assistir a Édipo Rei, montagem de conclusão de alunos de cursos técnicos da Escola de Teatro e Dança da UFPA. Inevitavelmente, associo a temática da obra às sensações que experimento na chegada, e penso se o que experimentei foi efeito previsto pelos realizadores da peça: que a atmosfera, régia como a figura miticamente formatada de Édipo, capturasse os espectadores desde a chegada pela fascinação provocada pelo lócus de encenação. Nisso vem a brisa noturna e sussurra em meus ouvidos como oráculo: “Lembra-te: é tênue a fronteira entre fascinação e intimidação…”. De fato, penso, tal linha é muito facilmente transposta sem querer. Foi o caso; minha fruição da obra, em um primeiro nível, foi sentir-me impotente, despossuído de iniciativa ou mesmo significância. Para mim, é importante ver a peça; para ela, é importante que eu a veja? Guardo a reflexão: é hora de verificar o ambiente.

Descubro, antes de tudo, que, não obstante a entrada franca oferecida pelo espetáculo, a lotação esgotada obrigará vários retardatários, entre eles eu, a ver a peça do lado de fora, pelo portão gradeado do palácio. Posto-me, pois, ao lado de alguns conhecidos, no lugar que me cabe. Enquanto aguardamos o início da apresentação, observo a forma como os elementos se dispõe no salão de entrada, transformado em sala de espetáculo. Não há elementos cenográficos senão as colunas, as escadarias, seus patamares e a pintura em tons pastel brilhantes que já constituem o salão. Vejo que a arquitetura híbrida, não propriamente grega clássica, não pareceu um problema para os encenadores, que assumiram os elementos, situando visualmente seu Édipo em algum lugar entre a opção pelo naturalismo helênico e o ecletismo landiano. Não vejo problema nisso naquele instante. Mas teima o oráculo da brisa da noite, que me perpassa com insistência ali do lado de fora: “A busca da magnitude pode esconder os erros do homem…”

Sem compreender naquele momento o que me é sussurrado, olho para o público, que já ocupa todas as cadeiras, que preenchem o salão até o limiar das escadarias, onde deverá se dar a ação. O palco é italiano, e todas as cadeiras estão no nível do solo. Comento com uma amiga ali próxima: “Nós somos a ‘geral’ do Édipo”. Talvez a formação da “geral”, no caso, pessoas impossibilitadas de entrar e sentar assistindo em pé através do portão, não tenha sido prevista pelos encenadores, mas se tornou um dado importante do momento de apresentação pública, por acabar recordando uma questão de segregação social, que por sua vez retoma um tema da tragédia grega: do lado de fora, é como se encarnássemos os papéis de excluídos, rejeitados, inaptos a fruir propriamente a obra, em suma, seres socialmente inferiores. Do lado de dentro, os aceitos, os escolhidos, aqueles a quem os realizadores (ou os deuses) deram chance de penetrar na casa sagrada. A tensão se mostra ainda mais prolífica quando, como presencio, alguns dos excluídos começam a questionar a portaria, tentando em vão tornarem-se parte dos escolhidos. Creio, porém, que tal tensão ultrapassou as expectativas dos encenadores, pois é visível que estes se esforçam em fazer entrar o máximo de pessoas possível. Tivessem-na percebido, poderiam, quem sabe, potencializá-la ou até radicalizá-la, instaurando com o espetáculo uma interessantíssima discussão sobre o lugar que nos é destinado no mundo. Registre-se ainda o dado importante de que a vista do palco era obviamente melhor para os inaptos, que viam por sobre as cabeças da plateia, do que para muitos dos aptos que ocuparam cadeiras traseiras e tinham muitas cabeças entre si e os atores. Além disso, do lado de fora tem-se a possibilidade de ocasionalmente se afastar um pouco para aproveitar o vento, ou comer uma pipoca com refrigerante. A conveniência de entrar e sentar é mais importante do que a fruição livre da obra? Há um preço a pagar por ser escolhido pelas forças superiores? São perguntas que poderiam ser provocadas, assumindo-se este debate.

Quando começa a ação, descubro que as percepções anteriores a ela são muito mais provocadoras do que o que se mostra em cena. Com raras exceções, há um gritante respeito pelo metro e pelos sentidos imediatos do verso sofocliano na dicção dos atores, que passam pelo texto quase sempre em registro de voz linearmente forte, pesado, arrastado. Rejeitam, assim, as muitas possibilidades de interpretação e tornam os longos diálogos difíceis de acompanhar. A percussão incidental reforça esta escolha da encenação, marcando de forma óbvia momentos onde se quer acentuar uma revelação da fábula ou produzir algum tipo de tensão dramática. As sutilezas e os impactos de uma tessitura vocal e sonora são fatores que merecem, em minha opinião, atenção especial da direção, dada a condição dos atores de aprendizes da interpretação.

Ao constatar isso, retorna o sussurro da brisa-oráculo, que eu a princípio não entendera, e me perfura os olhos. Édipo Rei, enfim compreendo, escondeu-se atrás de sua megalomania. A busca pelo cenário aristocrático, a concepção limitada de plateia, o peso imprimido no texto, ocultaram, como um enigma da esfinge, problemas de fundamentos da arte de teatro. Resta ao público, a mim, escolher entre aqueles, aderindo à reverência, ao louvor e à insignificância que tais índices de realeza nos impõem, numa atitude de revaloração acrítica dos cânones, de elogios ao belo apolíneo intacto, em suma, de manutenção do status quo; ou estes, detalhes que não se dão a ver tão facilmente, mas que são capazes de imprimir valor inaudito às obras, subvertendo visões cristalizadas e oferecendo-nos uma possibilidade de olhar de forma diferente, repensando o que pensamos sobre o que seja bom, belo e justo. Reflito, enquanto escuto os aplausos à montagem que se encerra: nos tempos atuais, em que nossa aristocracia parece ser a pior possível, não soa muito coerente que se apresente uma tragédia grega tão alinhada à primeira posição.

Parto do Palácio a perguntar-me que destino o oráculo nos reserva, e se teremos a sabedoria para interpretar o que ele nos avisa.