Mês: setembro 2015

Da cabeça aos pés

Da cabeça aos pés lava a água que jorra do alto, encharcando o corpo. Dilui impurezas, acalma as almas  efervescentes, mata a sede da pele. Encontro primitivo do ser com seu estado orgânico. Água que provoca no corpo arrepios, pontas de facas de gelo, aço fervente de calor. Mãe que acolhe e sussurra nos ouvidos a verdade do mundo, fala de lendas distantes, conecta afluentes humanos; marcação da natureza em nós.

Poucos enfrentam com coragem a torrente de significados que a água impõe sobre a sina humana de significar. Três atores e três atrizes do Grupo Experimental de Teatro, porém, perderam o medo, e mergulharam tão profundo, encontrando com tal maestria as essências pulsantes do líquido vital, que qualquer visão do trabalho que apresentam em Da cabeça aos pés não pode escapar das sensações. Das sensações que invadem os sentidos do primeiro pedido de passagem ao banho dourado de Oxum que encerra a apresentação. Com uma direção sensível e precisa, as camadas de imersão propostas por cada cena alcançam a qualidade da arte simples, sem artifícios formais, que ganha força do princípio elementar do teatro: o encontro de um olhar espectador com atores vivos, corpos que narram pelo movimento, onde vozes são movimento, membros são movimento, olhares são movimento. A percussão é uma chama de água que acende os pavios de água, e deixa-os queimar lúcidos, ritmados em ondas.

A escolha de abrir uma grande caixa cênica, ocupar seus altos, pisar no chão cru, sem cenários, é a evidente consciência do grupo de que o corpo é toda a necessidade da arte. É o próprio corpo que constrói esse altar cênico, no qual se louvam as origens que correm nas veias dos intérpretes, origens marcadas nos figurinos e nos poucos adereços. Falam-nos de uma afroamazonidade sem mistificações, sem discursos dispensáveis. Importa o que importa para cada um: o conselho do pai, o banho de cheiro, as memórias de infância com o boi, as marcas da dor negra. Cada um elege seu rio, e forma cachoeira que Da cabeça aos pés nos lava. Porque o teatro, além de encurtar distâncias culturais, também rompe com geografias do imaginário.

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