Mês: janeiro 2017

Com goiabada e sem compromisso

Romeu e Julieta, ao lado de Hamlet, é a peça de William Shakespeare mais encenada e adaptada da história. Curiosamente, tornou-se também um ícone do romantismo popular, e chegou às docerias e sorveterias como a tradicional mistura agridoce entre queijo e goiabada, de onde a Companhia dos Notáveis Clowns colheu o título de seu novo espetáculo, Queijo com goiabada. Portanto, a peça, que conseguiu a proeza de literalmente lotar o teatro Margarida Schivasappa no domingo chuvoso de sua noite de estreia, pode ser lida desde o título como um cruzamento entre a literatura trágica erudita e o assalto aos cânones e aos formalismos do teatro, além da improvisação cômica, que caracterizam a linguagem do palhaço. Vejo isso refletido principalmente no personagem de Romeu, em que, com grande apoio da interpretação de Nilton Cézar, o verso original de Shakespeare é dito de forma a construir uma caracterização que ao mesmo tempo se leva a sério e ri de sua própria canalhice. Para além de dicções e interpretações, porém, o que me chama a atenção é a forma como a peça utiliza a cultura do brega como referência.

Enquanto a tragédia shakespereana remonta à tensão medieval da rivalidade entre famílias, enredo que serve à reflexão não só sobre amor, mas sobre destino, tempo, juventude, poder e diversos outros temas, Queijo com goiabada opta por ressituar a rusga familiar em termos de uma disputa de aparelhagens, em que uma só toca tecnobrega e a outra tem no repertório apenas bregas marcantes. Essa trama não é de todo ficcional, uma vez que, como constata a pesquisa de Antonio Maurício Dias da Costa (2009), o brega tradicional, com ritmo lento e letras românticas, e seu derivado, mixado com elementos eletrônicos em uma batida mais acelerada, apesar de serem ritmos que muitas vezes se misturam no repertório das aparelhagens e no gosto popular, têm entre si pelo menos duas tensões: uma mais ligada à produção, em que imputa-se ao tecnobrega, que prima pela virtualidade e pela rápida circulação, um certo prejuízo à popularização de novos artistas “de nome” do brega em trabalhos mais “bem produzidos”, como era frequente nas últimas décadas do século passado; outra, mais vinculada à recepção do gênero, em que se constata

a especialização das Festas de Tecnobrega, frequentadas basicamente por adolescentes e jovens, na maioria entre os 14 e os 25 anos e em que se destacam as mais importantes aparelhagens da cidade. O par oposto desse tipo de festa é o Baile da Saudade, em que se apresentam aparelhagens e artistas mais antigos, com o repertório básico de boleros e bregas antigos (bregas dos anos 80, conhecidos popularmente como flash bregas) e com a frequência majoritária de pessoas entre a faixa etária dos 20 aos 60 anos. (COSTA, 2009, p. 52, grifo do autor)

De onde derivam fenômenos como o surgimento de fãs-clubes e “galeras”, grupos de jovens que se reúnem em torno da identificação simbólica, da dança e do acompanhamento das aparelhagens por várias cidades, e que são muito frequentes em festas de tecnobrega e praticamente ausentes do circuito da saudade.

Nesse contexto, é muito interessante observar como Queijo com goiabada deixa de lado essas contradições ao mesmo tempo em que, de certa forma, as ilustra. Embora desde o prólogo do espetáculo, um duelo de dança apresentado no pátio do Centur, fique bem marcada a diferença nos hábitos musicais de uma e outra família, não vemos em seus membros nenhuma caracterização ou construção dramatúrgica indicadora de diferença de faixa etária, condição social ou relação simbólica com os ritmos, ausência que se mantém ao longo do espetáculo: as duas famílias parecem ser tradicionais, com criados subservientes, posições semelhantes em relação à religião, dentre outros aspectos. Vejo até alguma contradição nessa caracterização, já que é no núcleo dos Montéquio, família que só toca brega marcante, em que Romeu e seus amigos formam uma espécie de “galera”, enquanto Julieta, filha dos Capuleto, fãs de tecnobrega, é caracterizada como uma jovem um tanto abobada, que parece ser muito mais dependente dos valores da família.

Outro elemento que vejo a ilustrar essa análise é o coro, que, em mais de um momento, é central em uma forma narrativa muito original e divertida, como na cena em que “Quando chegar o amanhã”, de Leonardo Sullivan, narra a noite de amor de Julieta e Romeu, enquanto este tenta atabalhoadamente subir pela varanda do quarto da amada. Aqui, o “apaga essa luz” da letra é uma ótima zona de interposição cômica do enredo e dos elementos da encenação. Esse mesmo coro, contudo, ao longo de todo o espetáculo, se nega a construir e intensificar a ideia da rivalidade entre as famílias por meio das músicas. Nele se misturam todos os personagens, de uma família e de outra. As canções se limitam a ser um elemento de fundo, responsável por um tom de identidade regional e pela manutenção da proposta da companhia, mas fica na plateia uma vontade de ver uma renovação do sentido delas. E é também no coro que mora o que considero uma ilustração inconsciente do fenômeno cultural do brega: é visível que a maioria das canções executadas por ele são flash bregas. A identificação e a conquista da plateia ocorrem justamente por serem essas as maiores ocupantes do imaginário popular, enquanto o tecnobrega circula de forma mais restrita e tem vida mais efêmera nos corações e mentes, sendo talvez por isso um pouco esquecido pelo coro durante a peça.

A conclusão a que chego é que Queijo com goiabada é um espetáculo de clown cujos êxitos e inovações são mais restritos ao próprio processo de palhaçaria do grupo e a diálogos pontuais com as canções de brega que o embalam do que a um compromisso com uma concepção a respeito do fenômeno cultural que toma como referência. O que não impede, obviamente, de nos esbaldarmos nas ironias engraçadíssimas que surgem, como quando Romeu e um de seus amigos fogem após a morte de um rival dizendo que “Lá vem a população”. Sinto falta apenas de uma resposta do grupo ao que representa o brega nisso tudo, o que poderia nos levar a uma reflexão sobre o fenômeno, importante, a meu ver, no atual cenário de dissolução de fronteiras culturais, em que artistas do brega são alçados ao estrelato e a representantes da Amazônia a nível internacional e o show de uma aparelhagem é o maior evento cultural do ano dentro de uma universidade, como aconteceu no ano passado em Belém.

Gostaria de encerrar esse texto falando do que foi, para mim, especial de se ver, para além de qualquer análise, que foi uma espécie de reverência que todo o evento de domingo significou à história da arte do palhaço e do circo. O teatro Margarida Schivasappa, com seu formato italiano em degraus, que lembra a de uma plateia de circo, lotado, e os aplausos que a plateia rendia às passagens do personagem do narrador, que me lembrava uma espécie de mestre de cerimônias circense, foram um toque de saudosismo, um carinho na memória mais importante até do que os das canções de brega. Foi muito bonito.

Referência:

COSTA, A. M. D. Festa na cidade – o circuito bregueiro de Belém do Pará. Belém: EDUEPA, 2009.

 

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