Mês: fevereiro 2016

Uma princesa e uma escolha

Começo a pensar Feiurinha – o conto desaparecido a partir do que identifico como uma mistura de referências na construção das personagens. Imediatamente se nota que praticamente toda a visualidade do espetáculo é herdeira das versões consagradas pelos estúdios de Walt Disney para os contos de fadas. Este fato é uma clara tentativa de gerar identificação imediata do público para com as personagens, já que as imagens das princesas conforme retratadas nos desenhos animados são das mais recorrentes no universo infantil comercial.

É preciso, no entanto, ressaltar duas consequências dessa escolha. Em primeiro lugar, ela resulta em uma tensão mal resolvida pela encenação já que muitos de seus elementos não convergem para esse caminho. São exemplos as referências aos autores originais (as princesas falam explicitamente nomes como o de Perrault, Andersen, La Fontaine e Esopo), o personagem do escritor (que no início do espetáculo está lendo os contos em livros, provavelmente nas fontes originais) e do lacaio (personagem que não figura em nenhum filme da Disney, sendo uma introdução original na obra de Pedro Bandeira). Ou seja: não é coerente, dentro da própria estrutura da peça, que alguns de seus elementos dirijam-se aos contos clássicos e outros recaiam em releituras já feitas por outros artistas.

Em segundo lugar, o espetáculo abdica de seu potencial de recriar as personagens dos contos em formulações originais, que, sem dúvida, seriam mais significativas para o discurso estético e político do trabalho (e mais interessantes para os atores, que, sem isso, reduzem-se ou a um papel alegórico, como decorações de festas infantis, ou mesmo a estereótipos sem vida, no caso das princesas interpretadas por homens), sem que por isso tornassem-se as personagens ilegíveis aos olhos do público. Ao contrário; se reconhecemos que os contos de fadas, longe de serem meras peças de entretenimento pueril, representam “fascínio pela redescoberta dos tempos inaugurais/míticos, onde a aventura humana teria começado” e uma tentativa do homem de “responder à pergunta-chave de sua existência: Quem sou eu? Por que estou aqui? Para onde vou?” (COELHO, 2012, pp. 22-23), podemos também assumir que o público, tanto o infantil quanto o adulto, anseia por novos caminhos de diálogo poético com o maravilhoso. O surgimento bastante frequente nos últimos anos de filmes e séries de televisão inspiradas em contos de fadas clássicos parece confirmar essa asserção. Assim, não é exagero dizer que Feiurinha poderia nos oferecer mais, sem prejuízo da graça da comédia e da identificação do público. Na parte final, quando se conta a história de Feiurinha, isso fica ainda mais evidente, pois o elenco passa a atuar com um nível maior de liberdade criativa ao abandonar as referências supracitadas, e até mesmo a ironia, presente na atuação dos personagens do pai e da mãe de Feiurinha, é comunicada devidamente.

Por fim, ressalto o componente, sem dúvida promissor, de jogo cênico gerado pela direção de Victor Braun sobre a progressão da história. Embora boa parte das piadas da peça dependam mais da subjetividade do espectador do que da preponderância da linguagem teatral para funcionarem, não se nega que há uma potência dramática, oriunda de estudo, apuração e repetição, que, em suma, é o que possibilita uma experiência final agradável de ser espectador de Feiurinha.

REFERÊNCIA
COELHO, N. N. O conto de fadas: símbolos – mitos – arquétipos. 4. ed. São Paulo: Paulinas, 2012.

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